Domingo, 4 de Março de 2007

Publicidade - Loja de Poetas

Como todos os blogs que se prezem, este também tem direito ao seu espaço publicitário. Não há "Adsense", mas há vídeo. Este:



Nota: Devido ao elevado número de indivíduos necessários para a realização deste utópico anúncio publicitário, contámos com a ajuda de dois convidados especiais: Daniel Casteleiro (Vendedor de poetas) e Francisco Matos (Operador de câmara). A eles endereçamos o nosso profundo e sincero agradecimento.
publicado por H-Rally às 22:58
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Sexta-feira, 2 de Março de 2007

Os nossos poemas - Álvaro de Campos

                        Está escuro,
                        Está muito escuro aqui.
                        Sinto-me inútil aqui dentro, fechado.
                        Mas é aqui que me sinto.
                        Na escuridão…
                        Na solidão…

                        Está escuro,
                        Mas já vi luz! Em tempos…
                        Perdi-a! Não sei como, nem porquê.
                        Dissipou-se, qual fogo em lenha seca!
                        Um motor sem vida, sem som…
                        Naquela altura eu via, ó se via!
                        Talvez tenha perdido vontade de ver.

                        Está escuro,
                        Mas escuto um tic-tac constante,
                        Lá longe!
                        Que me apazigua e me faz cá estar
                        Indulgentemente,
                        Adocicado por tais sons.

                        Está escuro,
                        Não há luz lá fora,
                        Ou se a há, eu não a vejo.
                        Usurparam-ma,
                        Como se de um cancro se tratasse,
                        Como se a um Inferno se equiparasse

                        Está escuro,
                        Mas ainda há vida!
                        E que vida!
                        Oiço o doce rolamento das caldeiras
                        E tenho esperança!
                        Talvez um dia…

                        Está escuro,
                        Está muito escuro aqui.

H-Rally

Terminamos então com um poema  à imagem de Álvaro de Campos, no qual podemos encontrar características das suas 3 (três) fases: Decadentista, Sensacionista (Futurista) e Intimista.
Podemos encontrar neste poema versos que indiciam o tédio de viver e abulia, naturais na fase Decadentista do heterónimo, mostrando-se este conformado com a "escuridão" na qual vive. Já quando evidencia a vontade da ruptura com o presente, da procura por uma nova "luz", associando sempre esta ruptura às máquinas, estamos perante a sua segunda fase, a Sensacionista. Por fim, temos a sua última fase, a Intimista, na qual ele revela as suas saudades da infância, a altura em que "via", e dá a conhecer o seu lado mais céptico.

Álvaro de Campos era assim, possuidor de uma escrita aparentemente incoerente, mas que era, na verdade, inebriante e descomplexada.
publicado por H-Rally às 00:07
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Os nossos poemas - Ricardo Reis

                           

                            Ah… o derradeiro Fado…

                            A doce brisa da existência inebria-me;

                            Suave frescura sob os meus pés;

                            Da alta erva verdejante;

                            A maior das sublimes viagens;

                            Que tudo leva…

                            Como se de o sopro de Neptuno se tratasse;

                            E a mim… No Estígio Rio.

 

                            Imutáveis passam os mares;

                            Perenes as grandes montanhas;

                            Inconscientes o destino rodeia;

                            Tágides e Hermes.

                            O caminho cerra-se;

                            E a mim… no Estígio Rio.

 

                            Este é o dia

                            Pelo qual eu sou

                            Por onde existo

                            Lentamente, Inexoravelmente,

                            O negro vácuo atrai;

                            E a mim… no Estígio Rio.

 

                            De que serve então,

                            Matéria, Fracasso Sucesso Amor

                            Nada sendo mais que

                            Luz no Presente

                            Trevas no Passado,

                            Nada no Futuro

                            E a mim… no Estígio Rio

 

                            À beira do rio eu escrevo,

                            Sabendo que é este o momento,

                            Que não se repete,

                            Viver pelas Horas, Minutos, Segundos,

                            É esta lei, por isso escrevo

                            Outono que não pára…

                            Inverno que não espera…

                            Por mim… no Estígio Rio.


 H-Rally

 

É hoje chegada a vez de Ricardo Reis, o estóico-epicurista, e defensor do Carpe Diem.

É bem visível neste poema a clara aceitação do destino, a Morte, à qual ninguém pode escapar, aqui traduzida pela repetição do verso “E a mim… No Estígio Rio”. Para além disso, neste poema é, também, tratada de uma forma extensiva, a filosofia de vida de Ricardo Reis, a importância do momento presente, descurando quer passado quer futuro. “É a Hora…” Deve viver-se o momento presente não esquecendo que “O Fado a todos nós chama”.

Esperamos que este poema corresponda às expectativas dos nossos visitantes, e que se assemelhe àqueles escritos pelo discípulo fatalista do “Mestre”.

 

publicado por H-Rally às 00:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Os nossos poemas - Alberto Caeiro

Os meus pensamentos resumem-se a sensações,

Penso com as mãos e com os pés,

E com o nariz e a boca,

E com os olhos e os ouvidos.

 

O Mundo não se criou para o pensarmos,

Mas sim para ser observado.

E sei vê-lo, pois vejo-o sem pensar,

E sem pensar consigo sentir

Consigo sentir-me parte dele.

 

Sinto-me a florir a cada momento,

Pronto a enfrentar aquilo que o Mundo me trouxer.

Sou como poeira,

Navegando ao sabor do vento,

Sem rumo, à deriva…

E sinto-me assim

A cada dia que passa,

Sinto-me feliz!

 

                                H-Rally

Publicamos, hoje, um poema tipicamente de Alberto Caeiro, o argonauta das "sensações verdadeiras".

Note-se, neste poema, a grande quantidade de verbos sensitivos, evidenciando a importância do sentir para Caeiro. É, ainda, apresentado a recusa do pensar para este heterónimo, afirmando que "Os meus pensamentos resumem-se a sensações" e "O Mundo não se criou para o pensarmos, / Mas sim para ser observado. ".

É, indubitavelmente, um poema com características daquele que foi / é O Mestre.

publicado por H-Rally às 23:26
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Os nossos poemas - Fernando Pessoa

Estrelas do meu ser
neste corpo nublado.
Anseio por te ver,
noite de céu pintado.

Sou um todo que sou eu,
Estrangeiro é o que sou.
Nada sou que seja meu,
eterna alma que mudou.

Estranho o coração,
que meu não pode ser.
Evita a emoção,
com medo de sofrer.

Vive com uma tal calma,
Sem alegria ou tristeza.
Somente tem na sua alma,
o Fado como certeza.

Contempla, o meu olhar,
a sua imensa beleza.
Desfruta sem pensar,
da simples natureza.
Ama as aves a cantar
doce e melodicamente,
e o cabelo a ondular
ao som duma brisa quente.

Ferve-me na razão,
um tédio de viver.
Nada almeja senão,
pelo ópio esquecer.

Invade-me o pensamento,
uma estranha morbidez.
O futuro é sentimento
e a máquina viuvez.

O que serei eu então,
numa noite iluminada?
Que estrelas brilharão,
nesta alma sempre alterada?


                        H-Rally



Para uma melhor compreensão deste poema apresentamos, em baixo, uma pequena explicação.

À primeira vista, podemos afirmar que este poema não tem características exclusívas de Fernando Pessoa ortónimo, uma vez que estão descritas temáticas dos três grandes heterónimos do poeta.

Note-se que, nas duas primeiras estrofes, está presente a temática do Eu fragmentado, de ortónimo. É precisamente essa multiplicidade que conduz o resto do poema. Nele, o sujeito poético associa uma parte do seu corpo a cada um dos heterónimos (Coração a Ricardo Reis; Olhar a Alberto Caeiro; e Pensar a Álvaro de Campos).

De uma forma geral, o poema pretende mostrar a multiplicidade do Eu, que eternamente acompanha a poesia de ortónimo. Ao atribuír partes de si próprio aos heterónimos, o sujeito poético demonstra toda a influência que estes exerciam em Fernando Pessoa.
publicado por H-Rally às 00:30
link do post | comentar | favorito

- Outubro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

- pesquisar

 

- todos os posts

- Publicidade - Loja de Poe...

- Os nossos poemas - Álvaro...

- Os nossos poemas - Ricard...

- Os nossos poemas - Albert...

- Os nossos poemas - Fernan...

- tags

- todas as tags

- arquivos

- Outubro 2007

- Junho 2007

- Maio 2007

- Abril 2007

- Março 2007

- Fevereiro 2007

- links

- Livro de visitas



- Design Alentejano