Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Os nossos poemas - Ricardo Reis

                           

                            Ah… o derradeiro Fado…

                            A doce brisa da existência inebria-me;

                            Suave frescura sob os meus pés;

                            Da alta erva verdejante;

                            A maior das sublimes viagens;

                            Que tudo leva…

                            Como se de o sopro de Neptuno se tratasse;

                            E a mim… No Estígio Rio.

 

                            Imutáveis passam os mares;

                            Perenes as grandes montanhas;

                            Inconscientes o destino rodeia;

                            Tágides e Hermes.

                            O caminho cerra-se;

                            E a mim… no Estígio Rio.

 

                            Este é o dia

                            Pelo qual eu sou

                            Por onde existo

                            Lentamente, Inexoravelmente,

                            O negro vácuo atrai;

                            E a mim… no Estígio Rio.

 

                            De que serve então,

                            Matéria, Fracasso Sucesso Amor

                            Nada sendo mais que

                            Luz no Presente

                            Trevas no Passado,

                            Nada no Futuro

                            E a mim… no Estígio Rio

 

                            À beira do rio eu escrevo,

                            Sabendo que é este o momento,

                            Que não se repete,

                            Viver pelas Horas, Minutos, Segundos,

                            É esta lei, por isso escrevo

                            Outono que não pára…

                            Inverno que não espera…

                            Por mim… no Estígio Rio.


 H-Rally

 

É hoje chegada a vez de Ricardo Reis, o estóico-epicurista, e defensor do Carpe Diem.

É bem visível neste poema a clara aceitação do destino, a Morte, à qual ninguém pode escapar, aqui traduzida pela repetição do verso “E a mim… No Estígio Rio”. Para além disso, neste poema é, também, tratada de uma forma extensiva, a filosofia de vida de Ricardo Reis, a importância do momento presente, descurando quer passado quer futuro. “É a Hora…” Deve viver-se o momento presente não esquecendo que “O Fado a todos nós chama”.

Esperamos que este poema corresponda às expectativas dos nossos visitantes, e que se assemelhe àqueles escritos pelo discípulo fatalista do “Mestre”.

 

publicado por H-Rally às 00:06
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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Os nossos poemas - Fernando Pessoa

Estrelas do meu ser
neste corpo nublado.
Anseio por te ver,
noite de céu pintado.

Sou um todo que sou eu,
Estrangeiro é o que sou.
Nada sou que seja meu,
eterna alma que mudou.

Estranho o coração,
que meu não pode ser.
Evita a emoção,
com medo de sofrer.

Vive com uma tal calma,
Sem alegria ou tristeza.
Somente tem na sua alma,
o Fado como certeza.

Contempla, o meu olhar,
a sua imensa beleza.
Desfruta sem pensar,
da simples natureza.
Ama as aves a cantar
doce e melodicamente,
e o cabelo a ondular
ao som duma brisa quente.

Ferve-me na razão,
um tédio de viver.
Nada almeja senão,
pelo ópio esquecer.

Invade-me o pensamento,
uma estranha morbidez.
O futuro é sentimento
e a máquina viuvez.

O que serei eu então,
numa noite iluminada?
Que estrelas brilharão,
nesta alma sempre alterada?


                        H-Rally



Para uma melhor compreensão deste poema apresentamos, em baixo, uma pequena explicação.

À primeira vista, podemos afirmar que este poema não tem características exclusívas de Fernando Pessoa ortónimo, uma vez que estão descritas temáticas dos três grandes heterónimos do poeta.

Note-se que, nas duas primeiras estrofes, está presente a temática do Eu fragmentado, de ortónimo. É precisamente essa multiplicidade que conduz o resto do poema. Nele, o sujeito poético associa uma parte do seu corpo a cada um dos heterónimos (Coração a Ricardo Reis; Olhar a Alberto Caeiro; e Pensar a Álvaro de Campos).

De uma forma geral, o poema pretende mostrar a multiplicidade do Eu, que eternamente acompanha a poesia de ortónimo. Ao atribuír partes de si próprio aos heterónimos, o sujeito poético demonstra toda a influência que estes exerciam em Fernando Pessoa.
publicado por H-Rally às 00:30
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Nós como Pessoa

Num rasgo de irascibilidade pensámos em fazer algo de único para publicar neste blog (ou blogue).
Depois pensámos melhor e decidimos antes escrever alguns poemas baseados na linguagem e estilo, tanto de Fernando Pessoa ortónimo, como de alguns dos seus heterónimos.

De forma a abrandar o ritmo de visitas a que este blog é sujeito e visto que até se enquadra no desafio da semana 4, iremos colocá-los aqui no blog, na seguinte ordem:

1º Fernando Pessoa (Ortónimo);
2º Alberto Caeiro;
3º Ricardo Reis;
4º Álvaro de Campos.

Uma boa coabitação neste mundo!
publicado por H-Rally às 00:03
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Cartas de Amor

Para comemorar este dia de S. Valentim nada melhor que um poema de amor de um dos heterónimos de Fernando Pessoa: Álvaro de Campos.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Fernando Pessoa começa dizendo que as cartas de amor são ridículas, só o facto de serem cartas de amor é ridículo, mas, no fundo, ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor, quem nunca amou... ridiculamente.

Fonte: AGULHA, Revista. Jornal de Poesia. Acedido em: 14, Fevereiro, 2007. Álvaro de Campos: http://www.revista.agulha.nom.br/facam83.html
sinto-me:
publicado por H-Rally às 10:24
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Sábado, 10 de Fevereiro de 2007

"Autopsicografia"

Não poderíamos deixar de mostrar, neste blog, um pouco da vasta obra de Fernando Pessoa. Como tal, ao longo deste concurso projectamos analisar alguns poemas presentes na obra Poesia de Fernando Pessoa, quer de ortónimo quer de algum dos heterónimos.

Para começar, escolhemos um poema do ortónimo deveras conhecido: Autopsicografia.

                                  O poeta é um fingidor.
                                  Finge tão completamente
                                  Que chega a fingir que é dor
                                  A dor que deveras sente.

                                  E os que lêem o que escreve,
                                  Na dor lida sentem bem,
                                  Não as duas que ele teve,
                                  Mas só a que eles não têm.

                                  E assim nas calhas da roda
                                  Gira a entreter a razão,
                                  Esse comboio de corda
                                  Que se chama coração.

                                                             (in Cancioneiro)


Este poema ilustra de forma tripartida uma das temáticas essenciais da poesia do Ortónimo , a "dor de pensar", aqui transformada em diversas outros sentimentos dolorosos. Temos então a dor fingida "O poeta é um fingidor", a dor sentida e a dor lida. Esta última, uma característica dos leitores que têm contacto com a dor fingida, por exemplo através de um poema em que o poeta ilustra diversos sentimentos negativos, manipulando os do leitor " Gira a entreter a razão". O poeta " É um fingidor", pois a dor que sente de verdade pode ou não ser a mesma da que ilustra no papel. É esta a máxima que, supomos nós Fernando Pessoa quer transmitir.

Fonte: JR, Arnaldo Nogueira. Fernando Pessoa - Autopsicografia. Acedido em: 10, Fevereiro, 2007. Releituras:
http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp
publicado por H-Rally às 20:13
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