Sexta-feira, 2 de Março de 2007

Os nossos poemas - Álvaro de Campos

                        Está escuro,
                        Está muito escuro aqui.
                        Sinto-me inútil aqui dentro, fechado.
                        Mas é aqui que me sinto.
                        Na escuridão…
                        Na solidão…

                        Está escuro,
                        Mas já vi luz! Em tempos…
                        Perdi-a! Não sei como, nem porquê.
                        Dissipou-se, qual fogo em lenha seca!
                        Um motor sem vida, sem som…
                        Naquela altura eu via, ó se via!
                        Talvez tenha perdido vontade de ver.

                        Está escuro,
                        Mas escuto um tic-tac constante,
                        Lá longe!
                        Que me apazigua e me faz cá estar
                        Indulgentemente,
                        Adocicado por tais sons.

                        Está escuro,
                        Não há luz lá fora,
                        Ou se a há, eu não a vejo.
                        Usurparam-ma,
                        Como se de um cancro se tratasse,
                        Como se a um Inferno se equiparasse

                        Está escuro,
                        Mas ainda há vida!
                        E que vida!
                        Oiço o doce rolamento das caldeiras
                        E tenho esperança!
                        Talvez um dia…

                        Está escuro,
                        Está muito escuro aqui.

H-Rally

Terminamos então com um poema  à imagem de Álvaro de Campos, no qual podemos encontrar características das suas 3 (três) fases: Decadentista, Sensacionista (Futurista) e Intimista.
Podemos encontrar neste poema versos que indiciam o tédio de viver e abulia, naturais na fase Decadentista do heterónimo, mostrando-se este conformado com a "escuridão" na qual vive. Já quando evidencia a vontade da ruptura com o presente, da procura por uma nova "luz", associando sempre esta ruptura às máquinas, estamos perante a sua segunda fase, a Sensacionista. Por fim, temos a sua última fase, a Intimista, na qual ele revela as suas saudades da infância, a altura em que "via", e dá a conhecer o seu lado mais céptico.

Álvaro de Campos era assim, possuidor de uma escrita aparentemente incoerente, mas que era, na verdade, inebriante e descomplexada.
publicado por H-Rally às 00:07
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