Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Fernando Pessoa - Para além da obra - O Texto

Era um ritual. Todos os dias, Fernando Pessoa caminhava até ao Martinho da Arcada, à Brasileira, ou outro café, onde se sentava a beber e a conversar com os seus amigos. E, por vezes, contrariando a monotonia de um ritual, esse percurso revelava-se uma caixa de surpresas. Ora perdia-se entre uns beijinhos com Ophélia, ora corria, aterrorizado por uma trovoada, até ao café mais próximo.

 
Escreveu muito, escrevia sempre! Mas não foi só isso que Fernando Pessoa fez durante a sua vida… A realidade é que por detrás do actualmente considerado melhor poeta português do século XX, encontramos uma pessoa com não só um conhecimento e cultura invejável, mas também, é claro, vícios, medos e as suas loucuras.



Genialidade ou Loucura?

Ano de 1913. Após ter estado na Baixa de Lisboa, Fernando Pessoa caminhava até à casa onde vivia com a Tia Anica e que, na altura, se situava na Rua de Passos Manuel. Tal era a sua “assaz infantil mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas”, como disse uma vez o poeta, que, na iminência de uma trovoada, Fernando Pessoa “[atira-se] para casa com o andar mais próximo do correr que [pôde] achar”. Nessa tarde, eram poucos os carros na rua, pelo que a única solução era mesmo andar até casa. Mas o certo é que a impendente trovoada nunca foi mais do que uns “pingos graves, quentes e espaçados”, leia-se, chuva. Fernando Pessoa não só chegou são e salvo a casa, como ainda conseguiu realizar a proeza de escrever um soneto pelo caminho! Imagine-se o poeta a paços largos até à sua casa, perturbado e constrangido pela situação, a escrever um soneto “calmo” e “suave”, como afirmou numa carta a Mário Beirão.

 

Mário Saraiva, em O Caso Clínico de Fernando Pessoa, afirma ainda que “ao ouvir o som das trovoadas, Pessoa escondia-se debaixo das mesas do Café Martinho da Arcada”. Mas a sua “loucura” não fica por aqui…

 

Em 1934, Cecília Meireles, uma poeta do século XX, afirma ter esperado, em vão, por Fernando Pessoa na Brasileira do Chiado. O poeta, sem quaisquer delongas, justifica a sua ausência, afirmando que segundo o seu horóscopo, os dois não se deviam encontrar naquele dia!

 

Para além disso, Pessoa não gostava do ganido dos cães. Era supersticioso ao ponto de pensar que havia algo no simples acto de ganir que não agoirava nada de bom. E mais: era, inclusive, supersticioso em relação às datas de nascimento!


Mas, ao que parece, Fernando Pessoa também tinha uma vida amorosa! Será que esta era igualmente perturbada pelas suas superstições?


O seu “bebezinho”

Era. Nem mesmo na sua relação com a sua eterna namorada, Ophélia Queiróz, Fernando Pessoa deixava de lado a sua excessiva credulidade. Ophélia nasceu a 14 de Junho e Fernando Pessoa a 15 do mesmo mês. Tal não era a sua superstição, que o poeta regozijava-se com o facto de não terem nascido no mesmo dia pois, segundo afirmava, nos casos em que assim era, os casais não eram felizes. Hoje, crê-se que se referia ao casamento entre o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia.


À parte disso, Fernando Pessoa era deveras apaixonado por esta personagem feminina. Fazer-lhe caretas e atirar-lhe beijinhos era o tipo de ritual brincalhão e romântico que se tornou uma rotina entre eles. Por vezes, contudo, demonstrava o seu amor de uma maneira pouco ortodoxa, mas sempre cheia de simbolismos.

 

Imagine-se Fernando Pessoa e Ophélia, na Calçada da Estrela, perto do Rato, em Lisboa. O poeta fita a sua namorada e diz-lhe: “O teu amor por mim é tão grande como aquela árvore”, apontando para uma árvore que, efectivamente, nem existia. Ophélia, fingindo que não percebia, responde-lhe: “Mas não está ali árvore nenhuma!”, ao qual Pessoa replica: “Por isso mesmo”.

 

Porém, naquela altura, não era fácil o casal estar sozinho. De modo que, quando se encontravam, era frequente apanharem o eléctrico para Poço Bispo, ou então o comboio de Santos até ao Cais do Sodré, uma vez que eram percursos de longa duração. O certo é que Fernando Pessoa aproveitava este facto para prolongar o seu tempo com “Ophélinha”.

 

Sim, é verdade. Fernando Pessoa tratava sempre, ou quase sempre, Ophélia por diminutivos como “Ophélinha” ou “Meu bebezinho”. Estas designações carinhosas eram muito frequentes nas suas cartas, mesmo se o conteúdo geral destas fosse de índole um pouco mais desagradável. Todavia, quando se encontrava pessoalmente com a sua amada, ora se tratavam por “tu”, ora por “você”.

 

Note-se “a sua amada” e não “a sua namorada”. Segundo consta, Fernando Pessoa pedia a Ophélia para não dizer que “namoravam”, mas antes que dissesse que se “amavam”. Era um amor tal que, por vezes, os ciúmes do poeta vinham à tona.

 

Certo dia, Fernando Pessoa em conversa com Ophélia disse-lhe: “Hoje pela primeira vez tive ciúmes dos olhos do meu primo”. Ao ouvir aquilo, Ophélia perguntou-lhe, simplesmente: “Porquê?”. Ao qual ele respondeu: “Porque eles viram-te e eu não te vi”.

 

Mas afinal, o que pensava Ophélia de Fernando Pessoa? Para ela o poeta era, nada mais, nada menos, do que uma pessoa muito especial, nomeadamente pela forma de ser, sentir, vestir, e também pela sua sensibilidade, timidez e excentricidade.

 

Verdade seja dita, Fernando Pessoa não vivia isolado do mundo, muito pelo contrário. Grande parte da sua vida foi vivida em Lisboa, a capital do seu país. Como tal, as pessoas, a sociedade, eram algo que rodeava inexoravelmente a vida do poeta. Como reagia ele a isso? Quais eram os seus comportamentos?


Relação com a sociedade

Fernando Pessoa tinha uma relação bastante invulgar, para a época, com a sociedade que o rodeava: ele não se importava que as pessoas o julgassem, o discriminassem, o tomassem por bêbado ou mesmo louco. Ele próprio, inclusive, provocava um pouco as pessoas com situações bastante caricatas.

 

Fernando Pessoa chegava mesmo a gozar com as outras pessoas, sem se importar com as suas possíveis reacções. Algumas vezes, punha-se a olhar para o chão, em plena Baixa Lisboeta, como se estivesse à procura de algo. As pessoas iam passando e, ao vê-lo a olhar para baixo, olhavam também e ficavam ali a ver se viam alguma coisa. Quando estivessem bastantes pessoas à sua volta a olhar para o chão, Fernando Pessoa levantava o olhar e continuava a andar como se nada se tivesse passado. Mas não se ficava por aí…

 

Pessoa costumava fazer-se de bêbado pelas ruas, fazendo lembrar o Vasco Santana em “O Pátio das Cantigas”, a falar e a ir contra os candeeiros. A sua tia, ao ver a figura do seu sobrinho, ficava bastante constrangida, pois era uma vergonha para a sociedade, mas Fernando Pessoa dizia apenas para a tia não se preocupar, pois ele não estava bêbado e as pessoas não tinham nada a ver com o que ele fazia.

 

E, na realidade, não se preocupava mesmo. Muito pelo contrário, parecia apreciar e gozar com a situação.

 

Era comum Fernando Pessoa, enquanto se encontrava a trabalhar, muito provavelmente a escrever à máquina, levantar-se, pegar no chapéu, ajeitar os óculos e ir até ao “Abel”. Esta simples acção de Pessoa, que se tornou um hábito, intrigou um colega de trabalho do poeta, Luiz Pedro Moitinho de Almeida (segundo Fernando Pessoa - Empregado de Escritório, do João Rui de Sousa). Esse mesmo colega apercebeu-se, algum tempo depois, que as idas ao “Abel” eram, nada mais, nada menos, que uma ida ao depósito mais próximo da casa Abel Pereira da Fonseca para tomar um cálice de aguardente. Certo dia, foram tantas as idas ao “Abel”, que Luiz de Almeida, aquando do retorno de Fernando Pessoa ao escritório, disse-lhe: “Você aguenta como uma esponja!”. Ao qual o poeta respondeu, com o seu sentido de humor: “Como uma esponja? Como uma loja de esponjas, com armazém anexo”.

 

Alcoólico ou não, o certo é que estudos à caligrafia de Pessoa não mostram quaisquer tipos de tremuras, ou outros sinais característicos do efeito de álcool ou outras substâncias. Embora tenha morrido de uma doença hepática, aos 47 anos, a verdade é que Fernando Pessoa conservou sempre as suas faculdades mentais, vivendo e morrendo mais lúcido que nunca. No entando, lúcido ou não, o poeta manteve sempre as suas excentricidades.

 

Tal não era a sua indiferença a quase tudo que, certo dia, Montalvor confrontou-o e disse-lhe: “Ó Fernando, é um crime você continuar ignorado!”. Dito isto, Fernando Pessoa respondeu, nem mais nem menos que: “Deixem estar, que, quando eu morrer, ficam cá caixotes cheios”. E assim foi. De facto, Pessoa deixou bastantes caixotes cheios que continham obras e ensaios de toda a espécie!

 
Pessoa multifacetado

Fernando Pessoa era uma pessoa bastante eclética, com conhecimentos de diversas áreas. Além de poeta, era, também, um dramaturgo, ficcionista, pensador, crítico, ocultista, esotérico, e astrólogo.

 

A título de curiosidade, Fernando Pessoa foi o responsável pela introdução do planeta Plutão, descoberto em 1930, nas cartas astrológicas. Os seus estudos de astrologia permitiram-lhe, também, fazer algumas previsões sobre o futuro literário e político da sua pátria. Dessas, destaca-se a previsão acertada da Revolução dos Cravos, que se deu quatro décadas após a sua morte.

 

Esta profunda atracção pela astrologia e cabala está demonstrada nas inúmeras cartas astrais que o poeta elaborou ao longo da sua vida. Chegou, inclusive, a realizar uma para os seus três grandes heterónimos!

 

A sua excentricidade revela-se, também, no ocultismo e esoterismo de Pessoa. Sabe-se hoje que este nutria um interesse especial por Sociedades Secretas, destacando-se a Maçonaria, os Templários, e Rosa-Cruz. O poeta afirma mesmo na sua nota biográfica ter sido “Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

 

Fernando Pessoa era assim. Era único. Mas, segundo ele, todos o éramos: "Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe".

 

Grande parte dos episódios relatados nesta reportagem foram-nos gentilmente fornecidos por Inês Leitão, da Casa de Fernando Pessoa.

Data de acesso: 23 de Fevereiro de 2007, 18 horas.

Um grande obrigado!

Outras Fontes:

publicado por H-Rally às 22:38
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